Se encontrarmos vida em Marte, como podemos ter certeza?
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Se encontrarmos vida em Marte, como podemos ter certeza?

NASA, JPL-Caltech e MSSS
O robô Rover da Curiosity está percorrendo Marte desde agosto de 2012

Encontrar evidências de vida em Marte é, há décadas, uma ambição da NASA, que gastou bilhões de dólares para mandar máquinas que caminham, coletam material e sondam o planeta vermelho. Mas uma vez que os sinais de vida sejam encontrados, como essas descobertas poderão ser verificadas?

No início de janeiro, a sonda Curiosity encontrou o que alguns pesquisadores pensaram que poderiam ser vestígios fósseis em Marte. Os cientistas os avistaram primeiro em imagens preto e branco: eram atraentes, pequenos e de características similares, suficientemente atraentes e incomuns para que a equipe da sonda fizesse o robô voltar e analisar melhor.

Uma origem mineral é considerada a mais plausível. Ainda assim, alguns acreditam que as características sugerem uma bioturbação – um processo pelo qual os organismos vivos que vivem entre sedimentos podem transformar a estrutura desses sedimentos. Os estranhos fósseis tinham traços parecidos com vestígios fósseis do período Ordoviciano aqui da Terra, os quais remontam a uma era ocorrida há mais de 440 milhões de anos.

Quanto a possibilidade de vestígios fósseis em Marte, “nós não descartamos a ideia,” disse ao site Space.com Ashwinn Vasvada, do Laboratório de Propulsão à Jato de Pasadena na Califórnia, e cientista do projeto da sonda Curiosity.”Mas nós certamente não utilizamos essa teoria como nossa primeira interpretação do que foi encontrado.”

O acontecimento ressaltou o grau de dificuldade de estudar e analisar essas características peculiares, bem como o quão limitada pode ser a performance investigativa da sonda robótica.

Sem dúvida, Marte está mantendo seus segredos escondidos – mas se o trabalho contínuo de detectar a vida no planeta se provar positivo, precisaríamos de respostas para uma questão fundamental: que protocolos são necessários para confirmar tal veredito?

A Escada da Detecção da Vida

“Faz muito tempo que nos preparamos para o procedimento de anunciar a existência da vida extraterrestre,” disse Michael Meyer, da NASA, cientista do programa Laboratório de Ciência de Marte e cientista líder do Programa da Agência Espacial de Exploração de Marte, em Washington D.C. nos EUA.

“Eu presumo que a descoberta e o anúncio iriam além do nosso comando e se tornariam uma tarefa para o presidente,” Meyer disse a Space.com em um e-mail. “A rapidez das notícias faria com que a descoberta se tornasse viral, mas isso apenas altera o imediatismo da resposta. De certa forma…o resultado não é muito diferente do que teríamos em uma falha de uma nave espacial.”

Jim Green, diretor da Divisão de Ciência Planetária da NASA, disse que para organizar o pensamento e a abordagem do tema da detecção da vida em outro lugar, a NASA e a comunidade da astrobiologia formularam o que o que é nomeado “Escada da Detecção da Vida.” A escada categoriza características que indicam a vida, e ela é ordenada a partir do menor sinal indicativo e como ele pode ser descoberto.

Green disse a Space.com que, como as ferramentas de detecção da vida possuem limitações, nossos instrumentos atuais estão em degraus diferentes de evolução na Escada. “Os sistemas atuais nos dão indicações sobre qual escolha tomar quando subimos a “Escada de Detecção da Vida,” ele disse.

A habilidade de formular um conjunto abrangente de medidas para detectar a vida atual ou antiga em Marte é um processo complicado e evolutivo, Green disse, e requer uma abordagem sistemática. “É nesse ponto que estamos. Nós temos a metodologia, eu acho, para continuar nos movendo em frente.”

Meteoritos Marcianos

Everett Gibson, um cientista emérito do Centro Espacial Johnson da Nasa, no Texas (EUA), foi um dos líderes da equipe que anunciou em 1996 a descoberta dos sinais de vida antiga no ALH4001, um meteorito marciano que caiu na Terra. Vários anos depois, a equipe disse que havia evidências adicionais em mais três amostras vindas de Marte, o que reforçava o caso.

As alegações sobre o ALH84001 foram intensamente debatidas, e grande parte da comunidade científica acreditava que as características incomuns detectadas no meteorito existiam por motivos não biológicos. Contudo, esse debate sobre a possível existência de vida na rocha marcial é visto por muitos como um evento chave para a formação do campo da astrobiologia. Gibson achou as fotos recentes do Curiosity interessantes e está ansioso para entender sobre a composição das características das imagens. “Elas me lembram de coisas que observamos em todo o registro geológico da Terra…mas essas características estão em Marte,” ele disse a Space.com.

“Pelo menos a equipe do Curiosity teve interesse o suficiente para voltar e obter dados adicionais sobre essas características,” disse Gibson. “Agora seria bom se eles ao menos medissem a composição das características e descobrissem a fonte do material encontrado,” ele disse.

Uma análise feita por um instrumento do Curiosity denominado Análise de Amostras em Marte (sigla SAM – em inglês), “poderia ser útil na tarefa de procurar resíduos relacionados à componentes bioquímicos que podem residir nessas características,” diz Gibson.

Seria proveitoso obter os dados do SAM, contudo, o instrumento não foi usado para estudar o estranho achado. (o SAM têm como objetivo estudar rocha em pó e amostras perfuradas de regolito).

“Nós não tivemos a oportunidade de estudar essas interessantes amostras com a SAM,” diz Paul Mahaffy, diretor de investigação da SAM no Centro de Vôo Espacial Goddard, da NASA. A equipe do Curiosity, no entanto, vêm realizando concertos no instrumento de perfuração do veículo motorizado, ele disse a Space.com, o que impediu por vários meses a realização de perfurações.

Interpretação dos dados

Quanto à procura por vida em Marte, Gibson continua confiante em relação à análise do meteorito ALH4001, que agora têm mais de 20 anos. Nós ainda acreditamos em nosso relatório de 1996 para a revista Science, no entanto, nenhum dos nossos dados foi provado…há apenas interpretações dos dados.”

“Claramente Marte, em seus primeiros bilhões de anos, tinha uma condição adequada a processos biogeoquímicos que são propícios à vida. Agora nós estamos aguardando dados adicionais do Curiosity e sua equipe,” diz Gibson.

Mesmo que uma prova claríssima de vida em Marte seja encontrada, como seria o anúncio? E há algum processo para checar as afirmações antes do grande comunicado? “Não sei responder essas questões,” disse a Space.com o astrobiólogo John Rummel, um cientista sênior no Instituto SETI e ex-chefe do Escritório de Proteção Planetária da NASA.

“Eu antecipo que o mais inteligente a ser feito é rever cada evidência em particular com um júri de experts que tenha um entendimento do que está sendo examinado. E seguir adiante a partir daí,” disse Rummel.

O grupo de experts, disse Rummel, teria que lidar com algumas questões chave, tais como: quais outras provas seriam usadas para comprovar uma descoberta como essa? Quais são os possíveis indicadores falso-positivos que podem nos conduzir a identificar erroneamente a evidência?

Reafirmar a interpretação

Rummel se lembra que múltiplos investigadores puderam examinar os meteoritos ALH84001 sozinhos, além de fornecerem seu conhecimento sobre as evidências coletadas pela Equipe do Centro Espacial Johnson da NASA.

“Eu diria que, se alguém for confrontado com provas tentadoras de uma possível ‘descoberta’ de vida ancestral em Marte,” Rummel disse, “a primeira coisa a ser feita seria tentar reafirmar a interpretação já dada para a evidência, e conduzir outros testes que podem apoiar ou refutar essa interpretação.”

Para Rummel, se alguém verifica uma evidência morfológica – evidência baseada em estruturas encontradas em Marte – as análises químicas deveriam ser realizadas em seguida para ver se os resultados são consistentes com a interpretação da morfologia. “A validação dos dados, das mais diferentes formas possíveis, é extremamente necessária,” ele disse.

Bruce Jakosky, professor de ciências geológicas e diretor associado de ciências no Laboratório de Física Atmosférica e Espacial na Universidade do Colorado, também compartilha dessa ideia. Ele é o principal investigador da missão MAVEN que está agora orbitando Marte.

Jakosky disse que a descoberta mais recente do Curiosity é muito diferente da situação do ALH84001. “No caso do ALH84001, os primeiros pesquisadores fizeram uma enorme quantidade de análises antes de publicar suas pesquisas, para definir as características do que estava sendo observado e compará-las com as múltiplas hipóteses que poderiam se formar,” disse Jakowsky ao Space.com.

“Tanto os mecanismos de formação biológica como os não-biológicos podem ser possíveis, por isso, os cientistas apresentaram suas melhores hipóteses e as discutiram até chegar à melhor conclusão. Além disso, eles também reconheceram as incertezas em suas conclusões,” ele disse

Extremamente prematuro

No caso dos achados enigmáticos do Curiosity, “tudo o que nós temos até então é um conjunto único de imagens sem análises específicas adicionais do que está presente, não uma há comparações entre hipóteses divergentes,” disse Jakosky.

Especulações de que essas características possam ser biológicas “são terrivelmente prematuras,” disse Jakosky. “Apesar de uma origem biológica ser possível, a ciência existe para determinar qual hipótese tem maior probabilidade, não apenas o que é possível.”

Se algo biológico for encontrado eventualmente, Jakosky suspeita que uma conclusão como essa não seria apresentada em uma conferência de imprensa onde os pesquisadores anunciariam a existência de vida além da terra.

“A hipótese mais provável é de que serão feitas muitas análises partindo de diferentes investigadores, e esse consenso será construído com o tempo, quando os cenários não biológicos começarem a ser descartados ou considerados menos prováveis,” Jakowsky concluiu.

Leonard David

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